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Projeto Adote o Sorriso de uma Criança

Realizado em Friburgo – Rio Bonito de Baixo – RJ

Projeto Social de Prótese sobre Implante para Pacientes da Terceira Idade

Sinopse:

O Projeto tem como missão o desenvolvimento simplificado das diversas técnicas de tratamento utilizando-se implantes para suporte de próteses odontológicas sociais em pacientes idosos .

Os resultados da experiência clínica serão transformados em protocolos de tratamento que permitam maior eficiência dos procedimentos, bem como a diminuição dos custos financeiros.

As conclusões resultantes dessas atividades serão divulgadas para o público interessado, leigo ou profissional, da área de saúde através de palestras, cursos, seminários e, também, complementados por confecção de manuais ou artigos técnico-científicos para os respectivos segmentos envolvidos.

Duração do Projeto (Etapa 1): 2anos

Publicações / Ecopolítica

Novos Conceitos de Armas de Destruição em Massa
Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho - Maio/2003

Queimadas e Desmatamentos, SARS, Armas Químicas, Ambição sem Limites, Nosso Padrão de Produção, Armas Biológicas, Nosso Padrão de Consumo, Bombas Atômicas. A Insensibilidade para com as Nossas Enormes Desigualdades, Mísseis Continentais, Nosso Padrão de Exploração da Natureza, AIDS, etc, etc, etc. Somos capazes de tudo isso?

A Guerra do Iraque está despertando uma série de questões que devem ser debatidos. Primeiramente, quais os verdadeiros motivos para se desencadear uma guerra? Agressão, injustiça, interesses, ameaça. Os motivos mais alegados tanto à esquerda quanto à direita da questão são:

Agressão – 11 de Setembro
Injustiça – as atrocidades e preconceitos que um governo faz com seu povo em nome de um regime ditatorial;
Interesses: Petróleo
Ameaça: Apoio ao Terrorismo Internacional; Produção de Armas de Destruição em Massa.

Um interesse não muito alegado, mas de fundamental importância é á ÁGUA. O Iraque tem a maior quantidade de água potável da região conferido pelos rios Tigre e Eufrates.

Parece cada vez mais claro no discurso americano que as qualificações de agressão e ameaça têm sido mais relevantes na medida quando ferem seus interesses da maior potencia do mundo. As injustiças que o regime iraquiano executaram contra grupos religiosos atualmente destacados, não representam o verdadeiro motivo, pois se assim fosse ações já teriam acontecido na década dos 80, quando os americanos estavam mais para aliados do que para inimigos. A questão só vem à tona na esteira da “ameaça ao American Way of Life” provocado pela ameaça ao regular suprimento de petróleo.

Nosso tema é Armas de Destruição em Massa, que foi depois de 11 de setembro a razão mais alegada para a guerra. O Iraque deveria eliminar todas as “suas armas de destruição em massa existentes em solo iraquiano”. Estamos diante de uma questão interessante: “Ninguém pode ter Armas de Destruição em Massa ou apenas aqueles paises que forem autorizados pelos Estados Unidos? Que valores democráticos são esses onde um pais decide o que é bom e o que não é em nome de todos os demais 95% da população mundial?

Outra questão é: O que é Arma de Destruição em Massa? Do ponto de vista bélico, significam armas capazes de matar grandes contingentes populacionais. São aceitas dentro desses grupos Armas Químicas, Armas Biológicas e Armas Nucleares. Todas elas são capazes de gerar enormes tragédias não apenas como decorrência do impacto imediato da explosão, mas também conseqüências de longo prazo incontroláveis.

O que podemos valorizar como importantes nos objetivos destas armas? As mortes humanas imediatas? As mortes e seqüelas futuras decorrentes da permanência dos componentes radioativos, químicos ou nucleares na atmosfera?

Vamos colocar, por enquanto, apenas o ser humano dentro da discussão. Não vamos dessa forma considerar ainda os processos de destruição em massa da biodiversidade. Poderíamos citar os trágicos impactos ambientais que se sucederiam, mas certamente que algumas potências hegemônicas não estão preocupadas, nem consideram destruição em massa a destruição de florestas e de sua biodiversidade (Quantas espécimes de animais e de nossa flora já foram extintas ou estão ameaçadas de extinção?).

Partindo da compreensão bélica inicialmente colocada, cabe argüir sobre o que é relevante para se determinar quais fatores de mortandade em massa? A enorme capacidade de matar? A forma brutal como elas matam e deixam seqüelas. Ou será que o importante não é o fato de serem armas que mataram centenas ou milhões de pessoas, mas o fato de sermos por vários meios atualmente capazes de matar centenas ou milhões de pessoas por outros métodos que não via armas de destruição.

Será que apenas essas armas de destruição são capazes de executar genocídios? Se o que importa é a matança em si, temos de incluir outras causas capazes de matar grandes contingentes populacionais. Poderíamos citar uma série de “armas de destruição em massa”, mas temos de reconhecer que todas essas armas são sub produto de uma grande arma, uma grande bomba que precisa ser desarmada, o mais rápido possível: “o padrão econômico dos desenvolvidos, que os países em desenvolvimento insistem em copiar”.

Não resta dúvida que tudo o que estamos vendo visa a manter um padrão de vida impossível de ser sustentado: o maior país do mundo tem 4,5% da população viva na Terra e 1/3 do Produto Interno Bruto Mundial. Do outro lado, temos mais de 1,5 bilhão de pessoas em estado de fome absoluta por falta de comida e água. Como palco deste “tolerado” genocídio, pela fome e sede, temos um sistema econômico, muito pouco ecológico, alicerçado por uma cultura tecnológica geradora de racionalização de custos diretos de produção, geradora de conforto para ‘todos” e capaz de validar sistemas produtivos absurdamente excludentes, não somente, não geradora de emprego, como também eliminadora de empregos.

Quando falamos em um sistema muito pouco ecológico falamos de um sistema capaz de destruir recursos naturais, sem se preocupar com a enorme biodiversidade nele existente. Vivemos no século XX um verdadeiro período de destruição em massa de animais e viveremos neste século XXI outro ciclo de destruição em massa agora de seres humanos, se algo não for feito para mudar nosso padrão de tolerância para conviver com nossas enormes desigualdades sociais e de relacionamento com o meio ambiente.

Não estamos nem permitindo que o ciclo natural da vida - criação( nascimento), manutenção( vida), renovação( morte) – aconteça de forma natural, pois a taxa de natalidade está caindo de forma impressionante seja pela decisão crescente de não ter filhos, como pela quantidade de abortos de filhos não desejados. Quer dizer: “poucos querem viver muito, muitos não conseguem viver mais do que um pouco e postergamos cada vez mais o direito de outros nascerem por interesses profissionais e sociais, quando não tiramos-lhe a vida antes de nascer.

Nosso sistema econômico, independente de ideologia, é capaz de conviver de forma indiferente com os mecanismos de exclusão em massa, transferindo para “outros mecanismos”, nem sempre organizados, o "apoio ou ajuda” às populações subdesenvolvidas e excluídas.

A questão é realmente preocupante. Podemos colocar em dúvida se a questão de ter armas de destruição em massa representa o verdadeiro determinante da Guerra do Iraque, sem querer defender o Sr. Saddam Hussein, absolutamente. Parece me que esta Guerra significa na verdade uma guerra pelo controle da segunda reserva mundial de petróleo e a maior reserva de água doce do Oriente Médio. Esta guerra parece significar na verdade a garantia de manutenção deste padrão de produção e consumo desigual e desumano, pois impede aqueles 1,5 bilhão(a caminho dos dois bilhões em 2010) de criarem acesso a comida, água e condições de habitação e saúde minimamente aceitáveis.

Chegamos a uma situação onde o sistema de equações exige que demonstremos que padrões de produção altamente consumidores de recursos naturais e padrões de renda e consumo altamente desiguais podem conviver lado a lado durante muito tempo. Se não houver um forte processo redistributivo de renda, acompanhado de uma profunda reavaliação do que devemos produzir e consumir, será impossível dar possibilidade de criação de condições mínimas de alimentação e água para mais de 20% da população mundial.

Se “Bio” significa Ser vivo e “cídio” refere-se a retirar a vida, talvez este seja um verdadeiro quadro de “biocídio” criado pelas armas mais letais que se conhece: falta de comida e de água para todos os seres humanos e animais devido ao nosso insustentável padrão de consumo que, não apenas é capaz de matar ou excluir populações inteiras por fome e sede, mas também extinguir animais, plantas, devastar florestas, destruir montanhas para extrair recursos minerais, destruir ecossistemas completos, poluir e destruir a camada atmosférica e interferir de forma egoísta e artificial no ciclo natural da vida.

Que tal darmos uma chance para as armas naturais de construção baseadas na tolerância, na igualdade de oportunidades, no amor e no respeito à vida. Espero que a Guerra do Iraque não venha a nos desviar do real problema relacionado à nossa essência, à nossa maneira de ser, pensar e agir.

À nossa reflexão

Eduardo Werneck
Economista, MBA em Finanças, Analista de Mercado, Diretor do Pensamento Ecológico, Diretor do Instituto Brasileiro de Ecologia e Sustentabilidade - IBRES (em organização).

Publicações / Ecoeconomia

Sustentabilidade da Vida: Um eco desafio para resolvermos
Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho - Jun/2002

Os fundamentos da eco-nomia tiveram profundas raízes no pensamento filosófico no século XVI e XVII, onde podemos destacar, entre outros, René Descartes, Francis Bacon e Isaac Newton. O famoso pensamento de Descarte restringia o existir àquele que pensava (Penso, logo existo). Aquele que não pensava não tinha vida e, portanto, podia ser destruído ou consumido, sem culpa, pelo homem. Bacon defendia abertamente em seus pensamentos que o homem tinha que se aproveitar ao máximo da natureza no que lhe podíamos extrair em benefício do homem. Quanto a Newton, devemos a ele toda a formulação matemática e física que determinou os conhecimentos sobre a teoria do equilíbrio, usada na economia.

Uma das primeiras correntes de pensamento econômico, a fisiocracia (primeira metade do século XVIII) dizia que: “Toda a riqueza emana da terra”. Todas as demais formas produtivas não ligadas à terra, indústria e comércio, são estéreis, em nada contribuindo para a riqueza humana. Esta talvez tenha sido o ultimo reconhecimento do pensamento econômico quanto à importância da natureza para a construção dos valores humanos... Foi Adam Smith, e sua “mão invisível”, quem sintetizou todas essas influências filosóficas, humanistas e econômicas gerando o primeiro tratado sobre economia formalmente reconhecido como tal, “Uma investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”. Era a economia do laissez faire em contraponto ao absolutismo monárquico, onde Smith defendia que a defesa dos interesses próprios gerava satisfação e lucro para os indivíduos e isso resultava em maior bem estar e riqueza para as nações. Apesar de o título insinuar, não era prioridade de Smith em sua construção metodológica, aprofundar uma investigação sobre a natureza sob o prisma ecológico. Preocupava-se mais com a iniciativa do individuo, a organização da produção, a divisão do trabalho e a não intervenção do Estado. Era a natureza do homem que mais lhe importava.

A partir de então, o Homem se consolidou na crença de pertencer ao topo das cadeias econômica e ecológica, tratando-as de formas distintas, estruturando e valorizando processos de exploração e produção baseados unicamente em servir à produção das “necessidades” humanas, sem nenhuma preocupação ecológica ou de preservação ambiental.

É bem interessante que as noções de valor baseavam-se na escassez de produtos e no esforço de produção. Matérias outrora abundantes ou fáceis de serem obtidas como “ar” e “água” eram considerados sem qualquer valor econômico. Evidentemente que as conseqüências não podiam ser mais nefastas para a natureza: Água e ar puro entrando para o grupo dos bens economicamente preciosos. Com o requisito da escassez atendido, a água já tem um valor financeiro que deverá crescer no tempo e já não é mais exemplo nas universidades de “bens essenciais, mas de pouco valor econômico”. O ar puro, antes abundante e também economicamente irrelevante, apesar de essencial à vida e à saúde de nossos pulmões, também se torna cada vez mais escasso. A atmosfera está cada vez mais sobrecarregada de gases que provocam o aquecimento da terra e elevação dos oceanos com riscos de vermos cidades costeiras serem invadidas pelas águas. As ilhas do Pacífico que o digam. Obrigado Nova Zelândia por aceitar acolher o povo de Tuvaru.

Estamos na iminência, nos próximos 50 anos, de esgotamento de importantes reservas minerais. Isto quer dizer que em apenas dois séculos ou 200 anos vamos conseguir acabar com o petróleo do planeta, o qual demorou alguns milhões de anos para se formar. Estes foram os resultados dos 250 anos decorridos do início da Revolução Industrial e do tratado de Adam Smith.

Vamos só citar algumas conseqüências do modelo de vida escolhido por nós seres humanos, por todos nós indistintamente, inclusive pela maioria de nós ecologistas e ambientalistas ( temos de aceitar essa verdade: reclamamos mas continuamos andando de veículos a gasolina e a diesel. Os alimentos que ingerimos chegam a nós, em grande parte via, caminhões a diesel. E todos sabemos disso. Nada disso é novidade. Só não aceitamos ou, não ainda assumimos, que a solução depende de cada um de nós, sem exceção):

• A poluição aumentou 15%, nos últimos dez anos, apesar da Agenda 21 e das intenções do Protocolo de Kyoto e de todas as ações ambientalistas.

• Os Estados Unidos, responsáveis por 1/3 das emissões recusa-se a assinar o protocolo de Kyoto. Estes pais têm 5% da população mundial e consome 25% dos recursos naturais, sua renda percapita é seis vezes maior do que a média mundial( e condena a distribuição de renda no Brasil..interessante não?)

• Nosso modelo de vida não comporta a sua universalização para toda a humanidade:

• O sistema de vida desenvolvido nas economias ocidentais teve a adesão, do Japão, após a segunda grande guerra e com o fim da guerra fria os tigres asiáticos e países comunistas (países da antiga cortina de ferro, China e outros países do sudeste asiático) importaram modelos de consumo ocidentais, a partir dos anos 80.

• Se atribuirmos somente à China e Índia, que somam 2,2 bilhões de habitantes, uma renda per capita, por exemplo, de US$10000(quase um terço da renda dos americanos), o PIB anual seria da ordem de US$22,2 trilhões, mais de duas vezes o PIB americano. Será possível imaginar esses dois países pensando igual aos Estados Unidos, emitindo um nível de gases poluentes duas vezes maiores do que a dos americanos?

• Se todos os países do mundo conseguissem conquistar também renda média de US$10000, o PIB mundial seria de US$62 trilhões, seis vezes o PIB americano.

• Onde haveria recursos naturais para tanto? Quantos planetas TERRA seriam necessários para atender a essa demanda mundial.

• Considerando-se uma necessidade de terra para produção de alimentos, na base de dois hectares por habitante, seriam necessários 124 milhões de KM2 só para produzir alimentos. Essa área equivale a mais de 50% da soma das áreas da América do Norte, América do Sul, Europa, Antiga USSR, China e Índia.

• Uma pergunta final: Como se dará o aproveitamento dos combustíveis fósseis quando sua escassez ameaçar a saúde de todas as economias? Haverá partilha justa? Não seria o caso de mudarmos a nossa matriz desde já que disputas dessa natureza possam acontecer?


A nossa sustentabilidade exige uma mudança de paradigma no pensamento econômico

É evidente, portanto, que tais padrões de produção serão impossíveis de serem obtidos, sem uma profunda revisão em nossos valores eco-nomicos. Precisamos nos repensar, levando em consideração a produção de bens sob a ótica da preservação do ambiente global e de um padrão mínimo de satisfação das necessidades essenciais para todos. Nossas estruturas de produção e hábitos de consumo desenvolvidos nos últimos duzentos e cinqüenta anos não podem ignorar que a natureza demorou centenas de milhões de anos para esculpir-se e o “arquiteto ainda não terminou sua criação”.

Quando falamos em sustentabilidade, falamos dos preceitos básicos que determinaram a criação dos seres vivos. A moderna Teoria dos Sistemas Vivos diz que uma vida auto sustentável pressupõe quatro processos básicos: criação, manutenção, renovação e diversificação. Nenhum sistema poderá sobreviver de forma auto sustentada se não levar em consideração esses princípios fundamentais: os seres vivos devem ser capazes de se criar, de se manter vivos, de se renovarem e se diversificarem. A biodiversidade é que dá a força. Quanto mais espécimes, menor o risco de extinção da vida.

A teoria econômica jamais enxergou a organização de seus preceitos científicos dessa forma. O processo é vetorial: entrada/exploração de matérias primas, processamento/transformação em produtos, saída/consumo/resíduos. Em um ambiente ecológico, os resíduos são inteiramente aproveitados. Em um ambiente econômico, não. É, portanto, um sistema basicamente de ações destrutivas em suas fases de exploração, transformação e consumo. Apenas os resíduos não reaproveitados não são destruídos e deixados em aterros sanitários e lixões, contribuindo para a contaminação da atmosfera. Onde está a sustentabilidade? Onde está a eficiência na alocação de fatores?

A velocidade exploratória e destruidora de das últimas gerações estão gerando encargos crescentes para as gerações futuras. É bem possível que nossos bisnetos não nos vejam com bons olhos, pois estamos legando a eles um mundo sem florestas, mais desertos, sem água, sem ar, quantidade crescente de pessoas excluídas da economia e confinadas em espaços urbanos exíguos, que favorecem a violência. Simplesmente não estamos conseguindo produzir alimentos em quantidade suficiente para mais de ¼ da população mundial. Este percentual representa hoje “apenas” 1,6 bilhão de pessoas. Daqui a cinqüenta anos serão mais de 2,5 bilhões de pessoas com fome e sem água para beber.

Precisamos modificar nossas bases de pensamento econômico e convergir para uma visão ecológica. Precisamos valorizar estudos e pesquisas relacionados à cadeia produtiva, uso de “materiais reciclados ou reutilizados”, especialmente no que concerne à água, energia e lixo. Precisamos valorizar o desenvolvimento de uma ética ambiental. Precisamos priorizar conceitos que introduzam processos de produção limpa, que utilizem fontes renováveis e não poluentes de energia, como o sol e o vento, e tratá-los como insumos fundamentais em nossa cadeia produtiva. Precisamos fazer muita coisa e sabemos disso.

Mas para que tudo isso possa acontecer, em vez de ambientalistas e não ambientalistas ficarem trocando acusações como se espécies diferentes fossem, o homem econômico tem de entender que o prefixo “eco” da “eco” - nomia é o mesmo da palavra “eco”- logia. O habitat é o mesmo. Vale para os ambientalistas e não ambientalistas, para economistas e ecologistas. Para brancos, pretos, amarelos e índios. Como disse o Chefe Seattle, respondendo aos interesses dos Presidentes dos Estados Unidos, interessados em comprar suas terras: “O que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra”.

O profissional de economia tem de entender que tem um papel importante, não apenas discutindo juros, emprego, renda, consumo, impostos e investimentos, balanço de pagamentos e outras tantas variáveis importantes, sim, mas irrelevantes se não forem considerados a partir de uma cadeia de produção e de consumo que permita o reaproveitamento integral de todos os resíduos de consumo, respeite as riquezas naturais fundamentais, “água, ar, mar, florestas, fauna e flora, minerais” e não gere excedentes de gases que a natureza e nossos pulmões, não conseguem absorver; não gere resíduos que não consigamos reaproveitar. Este é o conceito de sustentabilidade que devemos buscar. Podemos com essa mentalidade, tentar permanecer por mais alguns milhões de anos e não discutir nossa sobrevivência em mais algumas centenas de anos, com serias dúvidas de conseguirmos alcançar o quarto milênio.

A sustentabilidade macroeconômica ou a sustentabilidade microeconômica ou quantas outras formas de visão econômica da sustentabilidade que queiramos construir, devem partir de um equilíbrio dinâmico Homem – Meio Ambiente, caso contrário será fortes candidatos a dinossauros, em seu estágio final de extinção.

Estamos saindo do lugar, muito lentamente mas estamos. Muitas empresas estão se orientando para esse propósito, não por causa de utopias ecológicas, mas porque estão começando a ser cobrado para buscar valores alem do lucro imediato dissociado de qualquer responsabilidade para com seu ambiente. Vejam o que diz o presidente da WWI-WorldWatch Institute: “As principais indústrias automotivas estão, todas, desenvolvendo motores de células de combustível. A Daimler Chrysler planeja iniciar a comercialização de um automóvel movido a hidrogênio, ainda nesta década. Mesmo os líderes da indústria petrolífera reconhecem que iremos finalmente sair de uma economia energética baseada no carbono para uma baseada no hidrogênio”. Vejam a British Petroleum na Inglaterra que já cumpriu suas metas voluntárias de redução de emissão de gases e continua em seu propósito de se transformar em uma matriz energética. A ESSO teve orientação para buscar oferecer alternativas energéticas limpas. Essa orientação foi aprovada em sua assembléia de acionistas. A 3M tem como meta desenvolver uma cadeia de processos industriais contemplando 100% de reciclagem e geração 0% de resíduos.

Para que todos os atores, nessa nova era, possam cumprir e desenvolver papeis de forma organizada, será útil institucionalizar os mecanismos de giro de recursos voltados para aplicações ecológicas. Como se trata de um mercado ainda novo, com poucos anos de gestação. Discutir exaustivamente o desenvolvimento de regras de captação e aplicação dos recursos. O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – MDL, a Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais – BECE a formação de fundos ecológicos com regras e princípios claros de constituição e gestão.

A economia mundial é cada vez mais universal na adoção dos fundamentos capitalistas, onde naturalmente o lucro e a competição são os seus principais combustíveis. Para que os fundamentos capitalistas dêem resultados positivos de redução da exclusão social e contribuição para uma produção útil e limpa, ele deve abrir mão de certos princípios: o princípio da maximização dos resultados financeiros e o principio da não solidariedade em suas ações. Competição e cooperação têm de conviver harmonicamente, sob a ameaça de a exclusão social chegar a 100%, isto é todos os homens serem excluídos da vida na Terra. Se não aprendermos a respeitá-la ela haverá de se fazer respeitar. A natureza não abre mão de suas regras, onde competição e cooperação atuam de forma equilibrada.

É imperativo portanto a convergência entre as visões eco-nomicas e eco-lógicas. É uma questão de tempo, não de escolha. Teremos de ser um pouco mais rápidos no caminho do aprendizado de novos valores. Não se trata de obter a prática da perfeição. Somos imperfeitos mesmo. Mas, um “pensamento ecologicamente positivo” já será uma grande conquista, pois assim estaremos estancando o processo destrutivo do meio ambiente da TERRA. A próxima etapa será transformar esses pensamentos em “ações ecologicamente positivas” privilegiando processos verdadeiramente construtivos e sustentáveis, onde a tecnologia seja um acessório útil, e não um fim em si próprio, sejam quais forem as conseqüências...

Só temos a agradecer aos outrora profetas do apocalipse, aqueles ecologistas, ecólogos, ambientalistas, ativistas, seja que nome queiramos dar a eles, que souberam evoluir saindo da mera denúncia para a proposição de soluções, embasadas pela comunidade científica.

Apesar disso, a maioria não quer abrir mão do seu conforto e de seus padrões de consumo. Esse é o grande desafio.

Ervin Laszio disse: “não é o mundo e sim nós mesmos, seres humanos, a causa de nossos problemas e que apenas redesenhando nosso pensamento e ação e não o mundo ao nosso redor, é que podemos solucioná-los”.

Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho – Economista, Diretor da ONG Pensamento Ecológico.

Publicações / Ecoeconomia

Economias ecologicamente sustentáveis? É preciso mudar os paradigmas de vida

Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho

Small is beuatiful – E.F. Schumacher

Os fundamentos da eco-nomia tiveram profundas raízes no pensamento filosófico no século XVI e XVII, onde podemos destacar, entre outros, René Descartes, Francis Bacon e Isac Newton, como os seus principais formuladores. O famoso pensamento de Descarte restringia o existir àquele que pensava (Penso, logo existo). Aquele que não pensava não tinha vida e, portanto, podia ser destruído ou consumido, sem culpa, pelo homem.

Bacon defendia abertamente em seus pensamentos que o homem tinha que se aproveitar ao máximo da natureza, naquilo que lhe podíamos extrair em seu benefício. Quanto a Newton, devemos a ele toda a formulação matemática e física que determinou os conhecimentos sobre a teoria do equilíbrio, usada na economia, e que nos legou uma enorme dificuldade de lidar com situações de desequilíbrio e de mudanças.

Uma das primeiras correntes de pensamento econômico, a fisiocracia (primeira metade do século XVIII) dizia que: “Toda a riqueza emana da terra”. Todas as demais formas produtivas não ligadas à terra, indústria e comércio, são estéreis, em nada contribuindo para a riqueza humana. Esta talvez tenha sido também o ultimo reconhecimento do pensamento econômico quanto à importância da natureza para a construção dos valores humanos. Foi Adam Smith, e sua “mão invisível”, quem sintetizou todas essas influências filosóficas, humanistas, das ciências exatas e econômicas gerando o primeiro tratado sobre economia formalmente reconhecido como tal, “Uma investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”. Era a economia do laissez faire em contraponto ao absolutismo monárquico, onde Smith defendia que a defesa dos interesses próprios gerava satisfação e lucro para os indivíduos e isso resultava em maior bem estar e riqueza para as nações. Apesar de o título insinuar, não era prioridade de Smith em sua construção metodológica, aprofundar uma investigação sobre a Natureza sob o prisma ecológico. Preocupava-se mais com a iniciativa do individuo, a organização da produção, a divisão do trabalho e a não intervenção do Estado. Era a natureza do homem que mais lhe importava.

A partir de então, o Homem se consolidou na crença de pertencer ao topo das cadeias econômica e ecológica, tratando-as de forma distintas, estruturando e valorizando processos de exploração e produção baseados unicamente em servir à produção das “necessidades” humanas, sem nenhuma preocupação ecológica ou de preservação ambiental.

É bem interessante que as noções de valor baseavam-se na escassez de produtos e no esforço de produção. Matérias outrora abundantes ou fáceis de serem obtidas como “ar” e “água” eram considerados sem qualquer valor econômico. Evidentemente que as conseqüências não podiam ser mais nefastas para a natureza. Agora, a partir das evidências de nossas agressões ao meio ambiente, água e ar puro “entraram para o grupo dos bens economicamente preciosos”. Com o requisito da escassez atendido, a água já tem um valor financeiro que deverá crescer no tempo e já não é mais exemplo nas universidades de “bens essenciais, mas de pouco valor econômico”. O ar puro, antes abundante e também economicamente irrelevante, apesar de essencial à vida e à saúde de nossos pulmões, também se torna cada vez mais escasso. Vender máscaras de ar já é um bom negócio em muitos países. Logicamente, para investidores que enxergam o longo prazo, empresas que produzem ar puro poderão virar blue chips.

A atmosfera está cada vez mais sobrecarregada de gases que provocam o aquecimento da terra e elevação dos oceanos com riscos de vermos cidades costeiras serem invadidas pelas águas. As ilhas do Pacífico que o digam. Obrigado Nova Zelândia por aceitar acolher o povo de Tuvaru!

Estamos na iminência, nos próximos 50 anos, de esgotamento de importantes reservas minerais. Isto quer dizer que em apenas dois séculos ou 200 anos vamos conseguir acabar com o petróleo do planeta, o qual demorou alguns milhões de anos para se formar. Estes foram os resultados dos 250 anos decorridos do início da Revolução Industrial e do tratado de Adam Smith.

Vamos só citar algumas conseqüências do modelo de vida escolhido por nós seres humanos, por todos nós indistintamente, inclusive pela maioria de nós economistas, ecologistas e ambientalistas, sejam de ideologia de esquerda ou de direita.

A poluição aumentou 15%, nos últimos dez anos, apesar da Agenda 21 e das intenções do Protocolo de Kyoto e de todas as ações ambientalistas.
Os Estados Unidos, responsáveis por 1/3 das emissões recusa-se a assinar o protocolo de Kyoto. Este país tem 5% da população mundial e consome 25% dos recursos naturais, sua renda per capita é seis vezes maior do que a média mundial e com esse perfil ainda condena a distribuição de renda no Brasil. Será que o princípio da distribuição igualitária não vale para a distribuição de renda entre os países, apenas dentro dos países?

O modelo de vida que está dominando não comporta a sua universalização para toda a humanidade – seria aceitar a circulação de mais um bilhão de veículos a gasolina e a diesel; a valorização de uma estrutura alimentar baseada em produtos gordurosos e contaminados por agro tóxicos, produzidos por processos de monocultura, prejudiciais à biodiversidade; consumimos cada vez mais remédios com sérios efeitos colaterais; produzimos uma quantidade considerável de lixo e aumentar o consumo, pelos padrões atuais, seria impraticável por falta de espaço para tanto aterro sanitário e lixão.

Se atribuirmos somente à China e Índia, que somam 2,2 bilhões de habitantes, uma renda per capita, por exemplo, de US$10.000(quase um terço da renda dos americanos), o PIB anual seria da ordem de US$22,2 trilhões, mais de duas vezes o PIB americano. Será possível imaginar esses dois países pensando igual aos Estados Unidos, emitindo um nível de gases poluentes duas vezes maiores do que a dos americanos?

Se todos os países do mundo conseguissem conquistar também uma renda per capita média de US$10.000, o PIB mundial seria de US$62 trilhões, seis vezes o PIB americano. Onde haveria recursos naturais para tanto? Quantos planetas TERRA seriam necessários para atender a essa demanda mundial.
Considerando-se uma necessidade de terra para produção de alimentos, na base de dois hectares por habitante, seriam necessários 124 milhões de KM2 só para produzir alimentos. Essa área equivale a mais de 50% da soma das áreas da América do Norte, América do Sul, Europa, Antiga USSR, China e Índia. Seremos um mundo cercado por áreas de monocultura intensiva e áreas de guarda de lixo de toda a espécie. Onde moraremos?

Cabe aqui uma pergunta: Como se dará o aproveitamento dos combustíveis fósseis quando sua escassez ameaçar a saúde das economias dos países desenvolvidos? Haverá partilha justa? Não seria o caso de mudarmos a nossa matriz desde já, antes que essa ameaça de disputa possa acontecer? Não restam dúvidas de que pelo comportamento dos Estados Unidos, nos últimos anos, os países em desenvolvimento serão cerceados na disputa pelos recursos.

Tenho dúvidas, se isto já não está acontecendo, pois o desempenho de países de grande potencial como Brasil, China e Índia podem criar mudanças substantivas na terrível divisão dos recursos naturais e isso não interessa aos países do primeiro mundo, em especial aos Estados Unidos.

Os países do Terceiro Mundo devem refletir bem se o “fracasso” da Rio+10 está relacionada a uma estratégia dos países desenvolvidos de “ganhar tempo”, enquanto não dominam plenamente a nova tecnologia para energias renováveis, geração de transporte limpo e produção de alimentos orgânicos. Quando o domínio tecnológico amadurecer poderemos ser pressionados à adoção dessas novas tecnologias, pois assim permaneceremos presos ao padrão histórico de exportação de produtos de baixo valor agregado, importação de equipamentos de alto valor agregado, domínio sobre os recursos minerais estratégicos pelas nações do primeiro mundo.

A nossa sustentabilidade exige uma mudança de paradigma no pensamento econômico

É evidente, portanto, que tais padrões de produção serão impossíveis de serem obtidos, sem uma profunda revisão em nossos valores econômicos. As visões econ6omicas e ecológicas têm de começar a freqüentar as mesmas mesas de discussão. Precisamos nos repensar, levando em consideração a produção de bens sob a ótica da preservação do ambiente global e de um padrão mínimo de satisfação das necessidades essenciais para todos. Nossas estruturas de produção e hábitos de consumo desenvolvidos nos últimos duzentos e cinqüenta anos não podem ignorar que a natureza demorou centenas de milhões de anos para esculpir-se e o “arquiteto ainda não terminou sua criação”. E agimos como se tudo fosse descartável.

Quando falamos em sustentabilidade, falamos dos preceitos básicos que determinaram a criação dos seres vivos. A moderna Teoria dos Sistemas Vivos diz que uma vida auto sustentável pressupõe quatro processos básicos: criação, manutenção, renovação e diversificação. Nenhum sistema poderá sobreviver de forma auto sustentada se não levar em consideração esses princípios fundamentais: os seres vivos devem ser capazes de se criar, de se manter vivos, de se renovarem e se diversificarem. A biodiversidade é que dá a força. Quanto mais espécimes, menor o risco de extinção da vida.

A teoria econômica jamais enxergou a organização de seus preceitos científicos dessa forma. O processo continua linear e mecanicista:

Entrada - exploração de matérias primas e ainda, timidamente, reciclagem.
Processamento - transformação em produtos intermediários e finais
Saída - consumo/geração de resíduos.
Feed back de consumo para sistema produtivo: renda (não faz parte de a literatura econômica valorizar reuso e a reciclagem de produtos e materiais como importantes insumos ou fatores de produção).

Nós, como sociedade, sequer temos senso de co-responsabilidade quanto ao destino do lixo. Estamos começando a ter alguma consciência de que em cada etapa do processo econômico, existem subprodutos em sua maioria inaproveitáveis, ou que exigem providências de reaproveitamento e reciclagem.

Em um ambiente ecológico, os resíduos são inteiramente aproveitados. Em nosso ambiente econômico, isto não acontece. Vivemos ainda em um sistema unidirecional onde predominam ações destrutivas em todas as fases de exploração, transformação e consumo. Os resíduos não reaproveitados não são destruídos, mas simplesmente deixados em aterros sanitários e lixões, contribuindo para a contaminação da atmosfera. Onde está a sustentabilidade? Onde está a eficiência na alocação de fatores? Isso é referência para otimização de resultados? A natureza não planeja nada, aloca seus recursos e produz resultados bem mais eficazes. Basta considerar o principio sistêmico para a vida, onde o feed back é fundamental.

Sem feedback de comportamento em cada etapa do processo econômico, aumentamos a velocidade exploratória e destruidora. Com isso, os encargos para as gerações futuras estão se tornando crescentes. É bem possível que nossos bisnetos não nos vejam com bons olhos, pois estamos legando a eles um mundo cheio de sol, sem florestas, mais desertos, sem água, sem ar, quantidade crescente de pessoas excluídas da economia e confinadas em espaços urbanos exíguos, que favorecem a violência. Simplesmente não estamos conseguindo produzir alimentos em quantidade suficiente para mais de ¼ da população mundial. Este percentual representa hoje “apenas” 1,6 bilhões de pessoas. Daqui a cinqüenta anos serão mais de 2,5 bilhões de pessoas com fome e sem água para beber.

Precisamos modificar nossas bases de pensamento econômico e convergir para uma visão ecológica e multidisciplinar. Precisamos valorizar estudos e pesquisas relacionados à cadeia produtiva, à geração e aproveitamento dos resíduos, da água potável, da energia. Precisamos valorizar o desenvolvimento de uma ética ambiental. Precisamos estimular a integração de visões, valorizando as discussões e soluções multidisciplinares. Precisamos priorizar conceitos que introduzam processos de produção limpa, que utilizem fontes renováveis e não poluentes de energia, como o sol e o vento, e tratá-los como insumos fundamentais em nossa cadeia produtiva. Precisamos fazer muita coisa, sabemos disso, mas não fazemos.

Mas para que tudo isso possa acontecer, em vez de ambientalistas e não ambientalistas ficarem trocando acusações como se espécies diferentes fossem, o homem econômico tem de entender que o prefixo “eco” da “eco” - nomia é o mesmo da palavra “eco”- logia. O habitat é o mesmo. Vale para os ambientalistas e não ambientalistas, para economistas e ecologistas. Para brancos, pretos, amarelos e índios. Como disse o índio Chefe Seattle, respondendo ao Presidente dos Estados Unidos, interessado em comprar suas terras: “O que acontecer a Terra, acontecerá aos filhos da Terra”.
O profissional de economia tem de entender que tem um papel importante, não apenas discutindo juros, emprego, renda, consumo, impostos e investimentos, balanço de pagamentos e outras tantas variáveis importantes, sim, mas irrelevantes se não forem considerados a partir de uma visão de desenvolvimento sustentável, da formação de uma cadeia de produção e de consumo que permita o reaproveitamento integral de todos os resíduos de consumo, respeite as riquezas naturais fundamentais, “água, ar, mar, florestas, fauna e flora, minerais” , não gere excedentes de gases que a natureza e nossos pulmões, não conseguem absorver e não gere resíduos tóxicos que não temos como reaproveitar. Este é o conceito de sustentabilidade que devemos buscar. Podemos com essa mentalidade, tentar permanecer por mais alguns milhões de anos e não discutir nossas sobrevivências em mais algumas centenas de anos, com serias dúvidas de conseguirmos alcançar o quarto milênio.

A sustentabilidade macroeconômica ou a sustentabilidade microeconômica ou quantas outras formas de visão da sustentabilidade que queiramos construir, devem partir de um equilíbrio dinâmico Homem – Meio Ambiente, caso contrário, seremos fortes candidatos a dinossauros, em seu estágio final de extinção.

Estamos mudando, muito lentamente. Muitas empresas estão se orientando para esse propósito, não por causa de utopias ecológicas, mas porque estão começando a ser cobradas para buscar valores alem do lucro imediato dissociado de qualquer responsabilidade para com seu ambiente. Vejam o que diz o presidente da WWI-WorldWatch Institute: “As principais indústrias automotivas estão, todas, desenvolvendo motores de células de combustível. A Daimler Chrysler planeja iniciar a comercialização de um automóvel movido a hidrogênio, ainda nesta primeira década do século XXI. Mesmo os líderes da indústria petrolífera reconhecem que iremos finalmente sair de uma economia energética baseada no carbono para uma baseada no hidrogênio”. A British Petroleum na Inglaterra que já cumpriu suas metas voluntárias de redução de emissão de gases e continua em seu propósito de se transformar em uma matriz energética. A ESSO teve orientação para buscar oferecer alternativas energéticas limpas. Essa orientação foi aprovada em sua assembléia de acionistas, contrariando a diretoria da empresa. A 3M tem como meta desenvolver uma cadeia de processos industriais contemplando 100% de reciclagem e geração 0% de resíduos.
No Brasil, as empresas industriais estão começando a enxergar que podem auferir retorno financeiro com o aproveitamento adequado dos seus resíduos industriais. São exemplos que podemos encontrar na Klabin, CSN, Usiminas, Belgo Mineira. Todas no caminho da construção de processos de produção mais limpos, com amplo reuso de água e, venda e manejo adequado de resíduos industriais.

Para que todos os atores possam desenvolver novos papeis e de forma organizada, precisamos criar e institucionalizar mecanismos de captação e aplicação de recursos voltados para investimentos ecológicos. Como se trata de um mercado com referências ainda recentes, com poucos anos de gestação, não podemos deixar de priorizar a discussão a respeito da reformulação do sistema financeiro, que permita a democratização do acesso ao capital e não repita os erros do capitalismo selvagem dos últimos 50 anos, cujos modelos de negócios privilegiam a escala do negócio e, portanto, as grandes empresas, na remuneração do capital.

Este novo sistema financeiro deve reconhecer que novos modelos ecológicos devem abrir espaço para valorização de ações, as mais locais possíveis, onde as populações se identifiquem com iniciativas de geração de renda local, associado à preservação de seu ambiente, tal como está preconizado na Agenda 21. Tais valores são preconizados, também, no modelo BECE – Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais. Isto significa criar um arcabouço institucional onde seja possível desenvolver mecanismos de captação e gerenciamento de recursos com remuneração compatível com a capacidade de os projetos de pequeno porte gerarem renda.

Mudando nossos padrões de consumo e nossos padrões de cooperação

Para manter a teia da vida firme e saudável é preferível que sua rede seja construída por todos que nela habitem, e nesse modelo, é importante que nossos modelos econômicos priorizem ações descentralizadoras e desconcentradoras da produção, da renda e da população, ao contrário das modelos atuais, que teimam em defender a economia de escala como um processo sem limite. Os fatos estão nos mostrando o quanto é perigoso nos apoiarmos em poucas grandes empresas. Mais uma demonstração de que quantidade e diversidade são importantes. Se os modelos de investimentos preconizam a diversificação, nossos modelos de produção deveriam seguir o mesmo princípio e isso não está acontecendo. Vivemos uma febre de fusões, incorporações e aquisições. Entre os 100 maiores “países” do mundo, 29 são empresas. De fato, esta é a economia da anti-diversidade, contrariando os preceitos naturais relacionadas à evolução sistêmica da vida.

Este mesmo raciocínio vale para nossa distribuição espacial, que reflete nada mais do que nosso perfil de renda absurdamente concentrado. Não existe nada mais antiecológico do que confinar 15% da população brasileira em menos de 0,1% de seu território. Refiro simplesmente às regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e São Paulo. Se considerarmos as dez maiores regiões metropolitanas, o quadro não é menos dramático: existem 31% da população brasileira morando em 0,3% de nosso território.

A economia mundial é cada vez mais universal na adoção dos fundamentos capitalistas, onde naturalmente o lucro e a competição são os seus principais combustíveis. Para que esses fundamentos capitalistas dêem resultados mais positivos no caminho da redução da exclusão social e contribuição para uma produção útil e limpa, ele deve flexibilizar certos princípios, como o de que a prioridade máxima em todo negócio é maximização dos resultados financeiros, não cabendo qualquer principio de solidariedade, quando a conjuntura assim o exigir. Competição e cooperação têm de conviver harmonicamente, sob a ameaça de a exclusão social chegar a 100%, isto é todos os homens serem excluídos da vida na Terra. Se não aprendermos a respeitá-la, ela haverá de se fazer respeitar. Já estamos começando a sentir isso.

É imperativo, portanto a convergência das visões eco-nomicas e eco-lógicas. É uma questão de tempo, não de escolha. Teremos de ser um pouco mais rápidos no caminho do aprendizado de novos valores. Não se trata de obter a prática da perfeição. Somos, de fato, imperfeitos. Mas, um “pensamento ecologicamente positivo”, por parte de todas as correntes de pensamento, já será uma grande conquista, para os próximos dez anos, pois assim estaremos nos preparando para estancar o processo destrutivo que estamos impondo à TERRA. A próxima etapa será transformar esses pensamentos em “ações ecologicamente construtivas” privilegiando processos verdadeiramente sustentáveis, onde a tecnologia seja um acessório útil, e não um fim em si próprio, sejam quais forem as conseqüências. Onde o capital seja verdadeiramente democratizado priorizando as formigas e abelhas e não apenas os elefantes e dinossauros.

A etapa derradeira será assumirmos a verdadeira transformação: abrir mão de alguns estilos de vida e confortos ecologicamente insustentáveis. Quando chega a nossa vez de se pronunciar sobre essa questão, como sociedade, resistimos a enfrentar a questão de frente e isto implica em aceitar um axioma ( “geralmente” axiomas costumam dispensar demonstrações): se não reformularmos nossos padrões de consumo, não haverá área na terra suficiente para tanta necessidade de consumo, por mais limpos que sejam nossos padrões de produção. Não resolveremos o problema da fome e da sede, que afligem a bilhões de seres humanos na Terra. Não adianta isolar ou congelar o problema. Não adianta teorias, onde o coeteris paribus abrange mais de 2 bilhões de pessoas com fome e sede.

A equação universal é simples: o que é necessário ser consumido deve ser no máximo igual ao que é possível de ser produzido. Só fica faltando resolver uma questão relacionada ao intervalo possível de compreensão do que seja necessidade de consumo, que represente diferenças naturais, em proporções que sejam moralmente sustentáveis, sem que os excluídos se sintam agredidos por demonstrações perdulárias de luxo e riqueza por parte dos países do primeiro mundo e suas elites, apoiados por uma exploração predatória de recursos finitos e um total descaso pelos países do terceiro mundo e sua pobreza.

Esse é o grande desafio. Se aceitarmos a realidade de que não cabemos todos no primeiro mundo e de que não desejamos ser rebaixados a quarto mundo. Só nos resta, então, criar um segundo mundo, ecologicamente sustentável, em que caibamos todos, já que o primeiro mundo e o terceiro mundo estão adotando padrões economicamente insustentáveis, com um fosso, entre eles, cada vez maior.

Ervin Laszio disse: “não é o mundo e sim nós mesmos, seres humanos, a causa de nossos problemas e que apenas redesenhando nosso pensamento e ação e não o mundo ao nosso redor, é que podemos solucioná-los”.

Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho – Economista, Diretor da ONG Pensamento Ecológico.

Publicações / Ecoambiental / Ecoeconomia

O Céu pode Esperar
Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho (*) – Jul/2002

É interessante todo esse embroglio de política ambiental internacional que o Senhor George Bush está criando em torno do Protocolo de Kyoto. Com isso os governantes americanos ganham tempo, fazem as contas, avaliam com rigor qual o balanço de lucros e prejuízos que seus eleitores corporativos poderão ter. Tentam captar aliados para impedir o sucesso do Acordo. EUA e mais, Japão, Canadá e Austrália seriam suficientes para comprometer as intenções do Protocolo de Kyoto. Esses quatro países representam em torno de 50% do total de emissões de gases na Terra. Não é suficiente para aquele senhor (peço desculpas, mas não consigo chamá-lo de presidente) ter menos de 5% da população mundial, 1/3 do PIB mundial e serem responsáveis do 36% da poluição mundial. A natureza agradece tanta ganância, tanta ambição, poluição vindo de tão poucos indivíduos.

Quanto mais achamos suportável poluir? A Terra tem limites? Quais são nossos limites? É uma questão de se avaliar os efetivos interesses de quem produz e de quem consome e, de quem aceita como natural a permanência de uma cadeia produtiva e de consumo apoiada em processos de produção e hábitos sociais cada vez mais nefastos e poluentes para a natureza, sua fauna sua flora e para os seres humanos. “O céu pode esperar” pelas nossas decisões.

Enquanto isso, problemas como buraco na camada de ozônio, aquecimento da terra, elevação do nível dos oceanos, ameaça aos mananciais de água potável, esgotamento de reservas minerais, redução das áreas de florestas nativas, redução da biodiversidade, aumento das áreas desertificadas, o aumento do lixo urbano não reciclável ou reutilizável(poderia efetivamente encher uma página de problemas ambientais). Matamos a natureza aos pouquinhos e, como é aos pouquinhos, não percebemos ainda sua agonia, que no fundo é nossa agonia, que também não queremos perceber. Sutilmente, continuamos agindo na base da “transferência de problemas”. Para quem? É obvio que para as gerações futuras, para aqueles que ainda não chegaram na festa. Vão pagar a conta de quem saiu antes e não podem reclamar. E como também não são bobos, vão deixar a conta para a geração que lhes segue. Até quando?

Quanto tempo mais poderemos ficar discutindo problemas ambientais a qual todos sabem os resultados, se mantivermos tudo como está?... coeteris paribus como nós economistas gostamos de falar.

Quanto tempo mais poderemos postergar providências de mudanças estruturais em nosso sistema econômico de produção e de valores de consumo?

Quanto tempo mais poderemos conviver em um ambiente de exclusão crescente de população economicamente ativa em escala mundial?

Quanto tempo mais poderemos conviver com mais de um bilhão de pessoas com fome e sem água? Não estamos apenas desmatando e extinguindo espécies animais. Estamos também extinguindo a nós mesmos.

Quanto tempo mais poderemos conviver com profundas modificações em nossa biodiversidade, muitas delas irreversíveis?

Quanto mais achamos que podemos conviver com alterações climáticas crescentes, que poderão colocar em risco as condições de vida propícias ao Homem? Precisamos esperar que uma grande cidade costeira da América do Norte, União Européia ou Japão sofra de forma pesada para comecemos a enxergar de forma responsável?

Se acreditamos que podemos manter eternamente nosso sistema de vida. Se podemos, por nossos atos, ser capazes de modificar as condições atmosféricas, de alterar as condições ambientais de forma artificial, sem nenhum efeito colateral para o meio ambiente e para nós mesmos e nossos descendentes, é porque realmente estamos convencidos que o “céu pode esperar” pelas nossas decisões. Aliás, o filme produzido, com esse título, mostra bem a que ponto a arrogância humana chegou de achar tudo é controlável, inclusive a morte.

Não sei se o “céu” concorda com essa afirmação. Quando ele cansar de esperar, ele há de nos avisar. A dúvida é se dará tempo para nos adaptarmos às suas novas regras. Vida que segue enquanto a natureza nos permitir. Ela vive sem a gente. Nós é que não podemos viver sem ela. Um dia vamos aprender isso.

Só peço ao “céu” que espere um pouco mais para nos dar esse aviso, pelo menos até que o Senhor George Bush se retire. Poderemos então voltar a ter esperanças de rever um governante social e ambientalmente mais responsável nos pais mais poderoso do mundo.

Vamos ver até onde os outros 95% da população, detentores dos demais 2/3 do PIB mundial conseguirão fazer sua parte reduzindo sua participação na emissão de gases. Seria a maior lição que poderíamos dar para o “império da arrogância”.

Se reduzíssemos a existência da Terra ao tempo de vida humana, o homem está na terra há 7 segundos. A geração pós revolução industrial tem menos de meio segundo de vida.

Quanto estrago conseguimos fazer em tão pouco tempo!

Vamos consertar? O céu espera se começarmos agora.

(*) Eduardo Werneck

Economista pela UFRJ, MBA em Finanças pelo IBMEC, Analista de Mercado. Diretor da TSA Business, empresa focada em estudos quantitativos e análise de cenários para empresas em marketing e economia. Diretor da Pensamento Ecológico, uma ONG criada em abr 2001, com objetivo de difusão de informações e formação de grupos de reflexão sobre temas ecológicos e promoção de cursos de educação ambiental e saúde.

Publicações / Ecoambiental / ecoeconomia

O Céu pode Esperar (Parte II)
Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho – Ago/2002

Sabemos da importância dos Estados Unidos para a consagração do Protocolo de Kyoto bem como reforçar, a nível mundial, a necessidade de mudança de paradigmas, em termos de implantação de uma visão ecológica mais profunda. Preocupa-me, entretanto, a posição que os defensores da Agenda 21 e do Protocolo de Kyoto tomarão em caso de fracasso na adesão mínima exigida. É compreensível que muitos países encarem sua adesão como uma medida política condicional à validação do Protocolo no âmbito internacional, principalmente pelos Estados Unidos.

O Sr. George Bush acabou de declarar que seu país só tratará desta questão em 2012, no terceiro mandato após este para o qual foi eleito, quando o presidente será outro. Incrível! Já poderemos ter “certeza” pelas suas palavras do que os próximos dois presidentes vão decidir.

Por essas razões é que não há mais como transferir a questão ambiental para o nível “País”, esperando para ver o que a “nossa atual referência EUA” fará em termos da responsabilidade ambiental. Sua visão econômica traz a questão ecológica para a superfície dos interesses dos seus principais eleitores, as empresas de energia, e consagra para os próximos dez anos, pelo menos, a predominância explícita dos interesses econômicos americanos sobre os interesses da biodiversidade mundial.

Vejam que paralelos interessantes: podemos condicionar nosso desempenho econômico à estabilidade da moeda, mas somos incapazes de condicionar o mesmo desempenho econômico à estabilidade da emissão de gases e outras práticas poluidoras. No primeiro caso, se a política de crescimento ameaçar a estabilidade inflacionária, então controle-se o crescimento. No segundo caso se a política de crescimento ameaçar a estabilidade do meio ambiente, libere-se a instabilidade ambiental e criemos defesas contra as ameaças da natureza, aumentando mais os gastos com pesquisa e assistência médica.

Todo e qualquer estrutura produtiva só se sustenta se a sociedade consumidora der a sua chancela. Pode-se tentar persuadir pela força da propaganda, mas na verdade, todos os produtos e serviços só terão seus processos de produção e interesses validados se aceitos em todo o processo da cadeia de consumo, onde sociedade consumidora é soberana nas suas decisões. O que podemos fazer? Parece simples, mas não é: “Dar preferência sempre a produtos ecologicamente mais corretos”.

Para dar suporte de informação e conhecimento à sociedade, poderíamos desenvolver um sistema internacional de rating de empresas poluentes nos moldes do que ocorre para análise de risco de crédito de empresas e países. Uma empresa rating A ou superior deveriam adotar princípios de emissão controlada de gases poluentes, de aproveitamento de resíduos produzidos durante seu processo produtivo, de incentivo ao uso de materiais recicláveis e reusáveis, de certificação ecológica de seus produtos, de atitudes de transparência e ética com seus empregados, acionistas, fornecedores, governo e comunidade.

Organizações internacionais e ONG’s poderiam criar uma convenção internacional para aplicação da obrigatoriedade de todos os produtos indicarem os efeitos colaterais criados para o meio ambiente durante todo o processo produtivo, tal qual é exigido das industrias de fumo e farmacêutica.

O poder público poderia tornar obrigatório o estudo da ecologia e de práticas de preservação ambiental nas escolas. As universidades deveriam ter também a obrigatoriedade da disciplina ecologia em todas as faculdades, não importa a especialidade.

Quando falamos das faculdades de economia, especificamente, sabemos que a ecologia está ainda distante da cultura econômica. Confesso que demorei mais de 20 anos para entender que a economia, em sendo a ciência da escassez, em sendo a ciência que trata da otimização na alocação dos fatores de produção não poderia tratar da exploração das riquezas naturais, sem um raciocínio ecológico subjacente. Confesso que demorei mais de 20 anos para entender que a ecologia deve ser definitivamente parte integrante do estudo da economia. A rigor, a economia deveria ser uma disciplina contida dentro do escopo ecológico. Isto é exatamente o inverso do nosso discurso de hoje.

Quando vemos eminentes economistas falando que o protocolo de Kyoto pode ser um remédio com efeitos mais amargos do que os efeitos colaterais do nosso modus vivendi, não podemos acreditar que afirmações como essas levem em conta preocupações com as futuras gerações. Se nestas afirmações, prevalece à lógica dos interesses produtivos dissociados dos interesses maiores da sociedade e da qualidade de vida. Então todos têm razão. Só não vamos entender que qualidade de vida é simplesmente viver mais. A industria farmacêutica agradece a demanda crescente e inelástica da população da terceira idade, vivendo cada vez mais, mas sufocada por uma atmosfera cada vez mais poluída, sem falar na cultura alimentar inadequada. Resultado: aumento do consumo de remédios.

Quando vemos um economista canadense contestar o protocolo de Kyoto, alegando que os prejuízos seriam consideráveis para a cidade de Alberta. Só podemos concluir que estamos perdendo completamente a capacidade de pensar. O que é bom para Alberta, é bom para o mundo? É esse o raciocínio lógico que aprendemos a construir? Porque Alberta não muda sua matriz de produção, incrementando a produção de equipamentos e produtos de energia solar? O problema seria resolvido: reestruture a economia de Alberta e ela contribuirá menos para a poluição do Canadá e do mundo.

Sabemos criar revoluções tecnológicas, mas temos enorme dificuldade de criar uma revolução ecológica. É uma séria limitação, sem dúvida! Parece que adotamos como preceito permanente de evolução, o desenvolvimento tecnológico. Se quisermos mudar alguma coisa, esta mudança exige um redirecionamento das prioridades de investimento em estudos e pesquisas da tecnologia para a ecologia, aprofundando pesquisas que beneficiem o restabelecimento do equilíbrio Homem-Meio Ambiente, que aperfeiçoem produtos e serviços que possam ser economicamente viáveis de serem consumidos pela sociedade, que tornem água e ar limpos.

Falar de desenvolvimento sustentável é tornar a visão ecológica um fim em si próprio. É aceitar que não podemos depender, em nossa matriz energética, do petróleo da maneira que dependemos. Não podemos desprezar o sol da maneira que desprezamos. Não podemos aceitar com tanta passividade e descaso que o terceiro milênio se consagre como a “era dos descartáveis”. Até o homem está se sentindo descartável. Será que é isso que queremos?

O Brasil não está no anexo I, não precisando, portanto, cumprir as metas estabelecidas no Protocolo de Kyoto, que ainda esperamos que aconteça (só depende do Japão). Entretanto, estamos em processo de crescimento acelerado de emissão de gases na atmosfera, mais de 35% nos últimos dez anos. Nessa velocidade, estaremos nos habilitando a integrar o grupo do anexo I em pouco tempo, ultrapassando a Alemanha, Canadá e Itália.

Temos a maior bio diversidade do mundo, a maior reserva de água doce do mundo, água subterrânea em grande quantidade, a maior floresta tropical do mundo. Só perdemos para a África em emanações de raios solares. Temos enorme capacidade de geração eólica e potencial de energia da biomassa.

O que estamos esperando para fazer a nossa parte independente de Protocolo de Kyoto? As ONG’s tem tido um papel preponderante no incentivo a praticas ecológicas e sociais, mas não podem fazer tudo sozinhas. Precisam do apoio da sociedade, através das classes empresariais, dos consumidores e demais partes interessadas.

Temos um enorme potencial de crescimento usando processos de produção limpa e quanto mais atuarmos nesta direção, maior será o nosso poder de barganha internacional e com isso aumenta nosso potencial de absorção de investimentos via “Mecanismo de Desenvolvimento Limpo” e outros mecanismos que surgirem para institucionalizar o financiamento a projetos de produção limpa.

As universidades terão sem dúvida um papel decisivo nesse campo, pois nelas germinam as discussões no campo da pesquisa e da tecnologia. Uma consciência ecológica crescente nas universidades será um sinal extremamente positivo. Melhor ainda será se essa consciência for plantada desde as escolas primárias. O céu ficará realmente estimulado a esperar.

Enquanto isso não acontece, “o céu continua perplexo” com a nossa desídia ecológica, pois ele pode nos fornecer fontes energéticas limpas as quais simplesmente não aproveitamos, por alegações menores de restrições de viabilidade econômica quando, na verdade, é falta de atitude mesmo.

O céu continua perplexo pelo pouco caso que estamos tendo com a preservação de nossas bacias hídricas, com nossas queimadas, com a nossa capacidade de agredi-lo e continuar achando-o belo.

Apesar de tudo, o céu pode esperar, mas pede que não esperemos muito para fazer a nossa parte, implementando uma ”política de estabilização macro-ecológica auto sustentada”, significando não apenas uma economia estável, com “inflação zero” e crescimento econômico auto sustentado, mas acima de tudo uma ecologia estável, com “nível de destruição zero” e organização ecológica auto sustentado, com sua biodiversidade preservada.

Em ambos os modelos, educação, alimentação e emprego para todos.

Caso o céu enxergue medidas positivas nos demais ¾ do mundo, já que não poderemos contar com os Estados Unidos, ele certamente há de esperar. O Brasil tem um papel preponderante neste processo.


Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho, Economista, Analista de Mercado, Diretor da ONG Pensamento Ecológico.

Publicações / Ecoambiental

O CÉU ESTÁ PERPLEXO
Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho – Set/2002

Às vezes chego a pensar se todas essas reuniões multilaterais não são nada mais do que oportunidade de trabalho para diplomata, que sentem prazer na eternização dos diálogos, como se a vida fosse um business game. Confúcio dizia que “na vida o que importa é o movimento, não seus resultados”. Talvez esse seja o princípio mais importante da era da civilização. Só que para os na filosofia oriental os movimentos são baseadas em fundamentos. Essa é a diferença entre orientais e ocidentais. Os primeiros preocupam-se com a fundamentação e a ação. Os ocidentais preocupam-se mais com a ação e seus resultados.

Quando não partimos de fundamentos sólidos acabamos nos perdendo nos movimentos e não conseguimos chegar a resultado algum, a não ser de continuam a prevalecer os interesses imediatistas dos detentores do poder na geopolítica internacional.

Se o homem tem prazer em discussões bizantinas sob a premissa que todas os seres orgânicos e inorgânicos estão ao seu dispor, como defendia Francis Bacon. A sensação de poder e domínio sobre tudo e todos, transcendendo a Terra. Já estamos chegando a Marte, Júpiter, Saturno. Em poucos anos, quem sabe inventamos uma tecnologia que nos permita chegar à velocidade da luz e ir assim além do sistema solar, com passageiros a bordo.

Enquanto isso, continuaremos a discutir Rio +5, Rio + 10, Rio+20, Estocolmo+30, Estocolmo+40, Johannesburg +10, Johannesburg+20, fóruns permanentes.

Em uma coisa, uma representante dos Estados Unidos tem razão, a Agenda 21 tem palavras demais comparadas às ações realizadas. Só que as poucas ações partem mais de seu país do que qualquer outro. E ainda querem condicionar ações imediatas quanto à preservação de nossa biodiversidade e florestas às suas ações na área de energias renováveis. Alegam que a Amazônia e o Matogrosso não estão no Texas e no IOWA.

É por isso que acredito que alguma coisa de bom vai acontecer nos próximos anos. Deus foi justo em não colocar a floresta amazônica nos Estados Unidos ou Europa, pois senão elas não existiriam mais. Só para lembrete, quem acabou com o Pau Brasil? Ainda não existiam brasileiros nesta época.

Devemos sim agir já para preservar nossa biodiversidade e nossas florestas e nosso clima, pois é tudo uma coisa só. A Terra é uma rede re relações, costuradas pela Teia da Vida, como chama Fritjof Capra. Não podemos colocar essas questões em termos de barganha. O caminho é um só: reconhecer a existência de um passivo ambiental e trabalhar para equilibrá-lo com ações ambientais ativas.

O céu está realmente perplexo com nossa arrogância em transformar o destino da Terra e sua rede de seres vivos e não vivos construídos em um processo de 4,5 bilhões de anos em um jogo diplomático de poder.

Continuo com sérias dúvidas quanto aos limites da paciência do céu e da terra. Até onde ela pode aguardar para nos dar uma lição que talvez custe o fim da raça humana na Terra. Se tudo isso não passa de um jogo, porque não apostamos quando acontecerá o fim do mundo? Essa pode ser uma aposta sem ganhadores, pois quando isso acontecer, os ganhadores não estarão vivos para receber o prêmio.

Se Johannesburg efetivamente fracassar, estaremos convictos de que os grandes ganhadores de todo esse processo de discussão terão sido, até agora, os segmentos de organização de eventos e empresas dos ramos lazer e turismo. Mesmo esses segmentos não se interessam por um meio ambiente em degradação. A ninguém interessa esse status quo, a não se a quem tem interesses mesquinhos. Esses grupos estão com certeza aportados em segmentos produtivos de visão pequena, onde seus interesses corporativos são mais importantes do que os interesses do ambiente onde estão inseridos.

Quanto ao Brasil, para falar a verdade, evoluímos muito. Há 25 anos, nossos generais se orgulhavam do milagre econômico brasileiro e convidavam todas as industrias mesmo que poluentes a contribuir para o seu crescimento. Temos agora uma das mais avançadas legislações ambientais do mundo. Só falta aplicar.

Os americanos têm razão, vamos agir mais e escrever menos. Que tal, eles começarem a rever seus padrões de consumo?

Eduardo Werneck, Economista da Pensamento Ecológico